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Crônicas de uma divorciada à procura de prazer

Uma mulher sentada numa casa grega de costas para nos, ela tem o cabelo apanhado e veste um vestido azul escuro.

Introdução

Há divórcios que acabam com um casamento.
O meu também acabou com a vida sexual.
Durante algum tempo andei a pão e água. Depois vieram as apps de encontros, a esperança de voltar a sentir desejo e a expectativa de que, algures entre tantos perfis, existisse um homem que juntasse inteligência, química e bom sexo.
Parecia um objetivo modesto.
Não era.

Capítulo 1

O homem das cavernas

Passados todos estes anos, ainda me lembro do primeiro.
À primeira vista, parecia promissor. Havia química, atração e vontade de repetir. Até chegar o momento em que revelou o seu lado mais primitivo: recusava-se a usar preservativo.
Não era distração nem falta de informação.
Era convicção.
Na cabeça dele, o prazer justificava a irresponsabilidade.
Na minha, a história terminou ali.
Foi o primeiro da coleção.
O homem das cavernas.

Quarto luminoso, em primeiro plano, uma mesa de madeira clara com um preservativo ainda fechado na embalagem dourada, um copo de água e uma jarra azul com ramos

Capítulo 2

O homem do preservativo

Depois apareceu o homem do preservativo.
Ao contrário do anterior, proteção não lhe faltava.
Faltava-lhe tranquilidade.
Tinha um medo quase irracional de engravidar uma mulher, mesmo usando preservativo. Por causa de um trauma do passado, recusava terminar a relação sexual com ejaculação vaginal.
Até aí, tudo corria bem.
Mas aquele ritual transformava um momento de intimidade numa negociação permanente com os próprios medos.
Mais uma vez, parecia que tinha encontrado um homem interessante.
E, mais uma vez, havia um detalhe que acabava por estragar tudo.
Foi assim que ficou conhecido nas minhas memórias.
O homem do preservativo.

Capítulo 3

O miúdo

Depois apareceu o miúdo.
Fazia-se passar por um homem mais velho. Desconfiei logo no início, mas havia qualquer coisa naquele olhar. Uns olhos grandes, quase de gato, e uma forma de me olhar que desarmava qualquer sentido crítico. Confesso: derreti-me.
Foi o date que mais tempo durou.
Três meses.
À primeira vista parece um feito extraordinário. Não era.
Houve alguns passeios, algumas conversas, mas a relação viveu sobretudo de visitas noturnas. Faltava-lhe presença, profundidade e, acima de tudo, intenção.
No fim, percebi que não estava perante um homem.
Estava perante um rapaz a brincar aos adultos.
Ficou para sempre conhecido como...
O miúdo.

Capítulo 4

O fotogénico

Depois apareceu o fotogénico.
Foi a primeira vez que me aconteceu: o homem das fotografias não era o mesmo que estava à minha frente.
Quando o vi, fui diretamente à casa de banho. Precisava de decidir se ficava ou se inventava uma desculpa para ir embora. Ainda por cima tínhamos marcado jantar.
Acabei por ficar.
Não queria ser fútil. Queria dar-lhe uma oportunidade.
Mas a atração não se convence.
Por mais simpático que fosse, nunca consegui sentir aquilo que uma relação precisa para começar.
Acabámos por ficar amigos.
Até ao dia em que trocou a minha amizade pela de uma herdeira rica.
Não o julgo.
Mas também não me surpreendeu.
Ficou conhecido como...
O fotogénico.

Capítulo 5

O nunca mais

Morangos com natas. Um copo de gin. Uma conversa agradável.
A noite parecia promissora.
O gin estava excelente.
Infelizmente, foi a única coisa que esteve.
Quando entrámos no quarto, achou que era boa ideia comentar os poucos pelos púbicos da minha vulva.
Foi um daqueles momentos em que o desejo desaparece antes de a outra pessoa acabar a frase.
Fiquei mais gelada do que o gin esquecido na sala.
Há comentários que não se esquecem.
Não porque magoem.
Mas porque revelam, em poucos segundos, tudo o que precisávamos de saber sobre quem os faz.
Nunca mais o voltei a ver.
Ficou conhecido como...
O nunca mais.

Dois copos de gin de morango repousam sobre uma mesa redonda de mármore claro, junto a uma janela aberta para uma varanda com vista para o mar. As bebidas têm gelo, rodelas de morango, um ramo de alecrim e bolhas de água tónica. A luz natural de verão entr

Capítulo 6

O realizador

O homem das fantasias.
Muito cenário.
Pouca memória.
Havia um quarto de motel com um baloiço.
Tudo parecia pensado ao detalhe, como se tivesse saído de um filme onde o cenário prometia uma noite inesquecível.
A madrugada terminou em casa dele, com pequeno-almoço incluído.
Confesso que, por momentos, pensei ter encontrado um homem generoso, atento e preocupado com o prazer da mulher.
Quase uma miragem.
E, afinal, era mesmo isso.
Porque, apesar de toda a produção, não ficou no meu hall da fama do prazer.
Percebi que um bom cenário nunca substitui química, cumplicidade ou talento.
Ficou conhecido como...
O realizador.

Capítulo 7

O XL

É possível um homem chegar à idade adulta sem perceber que o seu pénis é maior do que a média?
Pelos vistos, sim.
Foi preciso ser eu a explicar-lhe que existiam preservativos XL. Fiz a pesquisa, encontrei a marca e enviei-lhe a informação.
A boa notícia é que resolveu um problema logístico.
A má notícia é que não resolveu o resto.
Era, de facto, um XL.
Mas, esteticamente, fazia lembrar uma salsicha alemã que não tinha passado no controlo de qualidade.
Também não passou no meu.
Há características que impressionam.
E há características que convencem.
Nem sempre são as mesmas.
Ficou conhecido como...
O XL.

Quarto de hotel luminoso junto ao mar, com a cama desfeita em primeiro plano e dois canecos azul-escuro pousados sobre o edredão branco. Ao lado, uma manta azul-marinho reforça a paleta da identidade visual da Matchaqui. Ao fundo, uma varanda aberta deixa

Capítulo 8

O tal

Mais do que o sexo, era a pessoa.
Gostava dos passeios, das conversas, da forma tranquila como passávamos o tempo juntos.
Pela primeira vez em muito tempo, apetecia-me conhecer alguém para além da cama.
Havia apenas um problema.
Ele mantinha sempre uma certa distância.
Nunca percebi se era medo, falta de disponibilidade emocional ou simplesmente falta de vontade. Talvez nem ele soubesse.
Na última vez que estivemos juntos, fomos para um hotel.
Quando chegou o momento, não conseguiu ter uma ereção.
Não foi isso que me devastou.
Foi perceber que, mesmo naquele momento de fragilidade, continuava a sentir-me mais próxima dele do que de todos os homens que conhecera até então.
Adormecemos de mãos dadas.
Nunca esquecerei essa noite.
Porque foi nessa altura que percebi que nem sempre basta querer muito alguém.
O sentimento pode existir.
A reciprocidade, não.
Com o tempo, o fraquinho que tinha por ele acabou por se apagar. Como canta Rui Veloso, "já não tinha mais lenha por onde arder".
Ainda hoje penso nele de vez em quando.
Mas fica por aí.
Pelo bem dos dois.
Foi o único por quem me apaixonei.
Ficou conhecido como...
O tal.

Uma fotografia de plano médio de uma mesa de trabalho de madeira clara, organizada e bem iluminada por luz natural vinda de uma janela com plantas de trepadeira no canto superior esquerdo. No centro, um caderno aberto com páginas pautadas tem uma caneta-ti

Capítulo 9

O colega

O reencontro.
A toxicodependência.
O carinho.
A mentira.
O último foi um colega da escola.
Desde o início havia qualquer coisa que me deixava desconfiada. Mais tarde confirmou-se: era toxicodependente.
Que desperdício.
Tratava-me com carinho, fazia-me sentir especial, mas mentia com a mesma facilidade com que respirava.
O vício faz isso.
Foi, talvez, o homem mais contraditório de todos.
Tinha um pénis pequeno, o que exigia alguma criatividade e disponibilidade de ambos.
Eu não tinha problema nenhum com isso.
Ele tinha.
Torcia o nariz ao sexo oral e até os fluidos naturais da vagina lhe causavam desconforto.
Assim torna-se difícil.
Não pela anatomia.
Pela falta de entrega.


Epílogo

Cinco anos.
Não sei ao certo quantos homens passaram por esta história.
Perdi a conta.
Uns deixaram boas memórias.
Outros deixaram boas gargalhadas.
Alguns ensinaram-me mais sobre mim do que sobre eles.
O prazer que procurava nunca esteve apenas no sexo.
Estava na vontade de encontrar alguém com quem o desejo, a intimidade, o respeito e o humor pudessem existir ao mesmo tempo.
Continuo convencida de que esse homem existe.
Mas já não tenho pressa.
Como escreveu Esther Perel:
"O amor procura proximidade; o desejo precisa de espaço."
Talvez seja precisamente nesse espaço que ele ainda esteja à minha espera.
Leitura que inspirou esta reflexão:
Esther Perel (2006). Mating in Captivity: Unlocking Erotic Intelligence. Harper.

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